Era como se as ruas se movessem, e fizessem um desenho mal contornado em torno da cidade. De repente, seus pés não estavam mais no curso habitual, o qual estava acostumada a seguir em dias monótonos e nublados. Por algum motivo obscuro, de alguma forma absurda, tudo, em questão de segundos havia mudado. Não se sabe se por conta do tempo, ou de seu interior que, antes repleto, se tornara oco e completamente instável, como partículas radioativas. Era início do outono, aproximadamente final de maio e início de junho. As folhas, que agora eram o tapete das calçadas do centro, faziam um barulho tremendo toda vez que tocadas; parecia que elas murmuravam, discordavam, desacreditavam. O barulho nunca lhe incomodara, ao passo que, ora estava sempre com pressa, ora estava desatenta. Mas como disse, num desses dias do final de maio, início de junho, outros pés fizeram barulhos diante das folhas além dos dela. E então, ela viu um rosto. Não de mármore, não de pedra. Nem tão frio, nem tão caloroso. Apenas um rosto que, pretensiosamente ou não, lhe chamara atenção. Era lindo aquele rosto. Com traços definidos, deixando aparente a quem visse, todas as suas feições. Parecia um arcanjo, ou algo ainda mais perfeito, e mais sobressaído. Seu rosto encarava o outro rosto com naturalidade e curiosidade, mesmo que o último não fosse tão expresso, e consequentemente, tão explícito. Ela tocou o outro rosto com a ponta dos dedos. Ele não se moveu. As expressões do outro rosto a faziam ficar perplexa justamente por isso, ele não as possuía. Continuava intacto em seu lugar. Não se sabia ao certo se aquele monólogo encabeçado pelo silêncio o fazia bem, ou o fazia mal. Talvez não fizesse nada, quem sabe…Se amor é frio, a dor é congelante — Carla Mangueira (via doce-inverno)
O vento das 18 horas começou a tomar o lugar onde estavam. O outro rosto, indiferente, olhava-a de diversas formas, mas não saía do lugar. Seus olhos continuavam frios em cima de sua figura imutável, e digamos, um pouco assustada. Ela pegou a mão do outro rosto e tentou, durante vezes, entrelaçar seus dedos aos dele. Nada. Aquela mão parecia mais um punhado de mármore; duro e frio. Seus olhos fixaram-se nos do outro rosto. Ele possuía olhos azuis. Lindos, aqueles olhos azuis, que sobressaíam sobre sua pele tão clara, que parecia invisível, arriscava dizer. Pôs seus dedos novamente em seu rosto gélido, mas sem surtir nenhum efeito. Ele continuava parado.
— Tu não sentes? — ela disse, um pouco indignada, mas com ares desapontados. Para sua tristeza, o outro rosto continuou sem dizer uma palavra. Então, por si só, ela começou suas deduções, embora um pouco distorcidas, mas convincentes — a seus olhos.
Dizia sempre que seus pés iam para onde sua mente não ordenada. Seria então, mais uma artimanha da mesma, para deixá-la incoerente outra vez? Ou seria, então, um simples truque do destino? Seria ele, um reflexo do que ela realmente era por dentro? Um rosto atrás de outro, tentando esconder sua verdadeira face por trás de alguém que, na verdade, existia apenas em sua imaginação fértil e ágil? Não sabia, não sabia de nada. Era estranho alguém ter um encontro consigo mesma, mas, até onde sabia, não era totalmente impossível. Passou-se um tempo, e ela não sabia de nada. E o que tinha ciência, virara naquele momento, um punhado de pó, ou estrelas, como preferir. Não havia nada em si, a não ser um nó que aquele rosto inanimado, porém vivo, causara com seu silêncio perturbador.
Ela mexeu nos cabelos do outro rosto, alisou o outro rosto, tocou o outro rosto… Beijou o outro rosto. Sentiu aquele nó desatar e, logo em seguida, apertar ainda mais. O outro rosto jogou-a para longe de si. Não teve dúvidas: parecia seu reflexo. Amante da inércia e de causas desconhecidas. Praticante de algo chamado desapego. Preenchida por falta de amor. Que pena daquele rosto, que sofria as consequências de si mesmo!
Ela ficou incoerente por alguns minutos, sem entender muito bem a atitude do outro rosto, e sem ainda conseguir desatar o nó que aquele monólogo criara.
— Se amor é frio, a dor é congelante — pensara, e, depois de tanto pensar, imaginar, e até mesmo filosofar, viu o outro rosto se mexer. Com movimentos bruscos, como de uma criança que acaba de vir ao mundo, até chegar a manusear os próprios comandos. Ele a encarou. Fria e arduamente, mas encarou. Tirou o cabelo de seus olhos e encarou suas íris acinzentadas. Sorriu, mas fechou o mesmo em seu rosto dois segundos depois.
Se moveu mais uma vez, dando passos para trás.
— Cuidado, as vezes as tempestades se encontram nas mais eminentes formas de calmaria — disse, e seguiu para não sei aonde, algum tempo depois.
My heavy heart sinks deep down under
Quem te ama de verdade não mudaria um centímetro em você.
Foi muito lindo te ver pela primeira vez e pensar, sem palavras: eu quero.Caio Fernando Abreu (via tekpix)
Meu duminhoco *o*